Uma comunidade de Internet das Coisas

João Pedro de Carvalho – Internet das Coisas

Em outubro (2017), a Sidewalks Labs, empresa de inovação tecnológica ligada à Alphabet (Google), anunciou a criação de um bairro chamado Quayside, em Toronto, no Canadá. O desenvolvimento da vizinhança por uma companhia do Vale do Silício é parte de um programa de urbanismo que visa conectar qualquer objeto de uso quotidiano à Internet, através de um sistema de redes IoT (Internet das Coisas).

Tal termo, Internet das Coisas, refere-se a uma rede de objetos físicos que possui sensores e conexão com a Internet e é capaz de coletar, armazenar e transmitir dados. Ou seja, qualquer ferramenta que tinha, até então, um uso analógico ou inanimado será, no bairro de Quayside, conectada à rede. Como exemplo, pensa-se em janelas que se adequam às condições de iluminação, bem como quartos sensíveis à variação de temperatura e capazes de neutralizá-la ou cabines de telefone urbanas (orelhões) substituídos por pontos de rede wi-fi.

Nesse sentido (pensando no termo “ferramentas” como os objetos que usamos para realizar tarefas), o design de ferramentas que tínhamos à nossa disposição até então sofrerá mudanças bruscas, tal qual a forma como interagimos com eles, como interagimos enquanto sociedade, a forma como nos afirmamos como sujeitos nela e, nesse mesmo cenário, uma vez que tais objetos encontram-se conectados e se desenvolvendo à medida que captam informações, a forma como objetos interagem com outros objetos também será alterada.

O que se pretende afirmar é que por trás de cada ferramenta há uma tecnologia e, a partir do momento que a tecnologia é capaz de se auto-manter e de se desenvolver sem interferência humana, a ferramenta poderá se alterar de igual forma. A partir de tal proposição, pensamos que, em um cenário onde os objetos são sencientes e mutáveis, suas dinâmicas com o universo ao qual fazemos parte obedecerão ao mesmo padrão, alterando a forma como enxergamos o nosso meio.

A filosofia investiga tais cenários através da corrente do Realismo Especulativo, responsável por inquirir não só como os indivíduos especulam, mas também investigar como as coisas, por meio de cenários muitas vezes hipotéticos, seriam capazes de especular. Assim, faz-se visitas ao que entendemos como “humano” em um universo onde o que era inanimado ou inconsciente torna-se pensante e realizador de tarefas, de maneira abstrata ou física.

Em acréscimo aos filósofos materialistas, responsáveis por propor que o universo não é mais do que a projeção da nossa dinâmica sobre ele (ou seja, só existimos e assumimos identidade quando nossos espíritos exercem dinâmica em seu meio), vemos no Realismo Especulativo o meio onde os sujeitos exercem dinâmica também a exercendo sobre os sujeitos, de forma a anular, para os fins do Materialismo, a noção construída de “homem”, “sujeito”, “identidade” e, por fim, “realidade”. De tal maneira, se tanto homem modifica o meio quanto o meio modifica o homem, em uma cidade como Quayside, proposta pela Alphabet, a identidade da sua comunidade assume um ideal de simbiose com a ecologia das mídias ou desregra-se ao contrapor mente, corpo físico e a nova Internet das Coisas.

Para fins de exercício prático, a Internet das Coisas ainda encontra barreiras para se impor. A tecnologia ainda não lhe permitiu os avanços imaginados, a carência de rede para difundir a tecnologia já existente também é restrita, bem como estamos desprovidos da legislação responsável por regulamentar o seu uso e proteger quem a utiliza. Talvez, apenas após a construção de Quayside e do aperfeiçoamento dos saberes da IoT, nos preocuparemos com questões mais subjetivas, como a neurose institucionalizada em tempos de conexão abstrata às redes, nas quais, segundo pensaria um materialista, não exercemos dinâmicas para assumir identidades humanas reais. Imagina-se, agora, objetos realizando tais dinâmicas em substituição ao nosso trabalho quotidiano.

Processos de Criação em Mídias Digitais – 2017/2

Relatório dos Seminários

2 comments

  • Samuel Vieira

    Quayside é a cidade menos humana da história. Não haverá espaço para errar em Quayside. Tudo será dado de mão beijada para seus moradores. A humanidade, com todos os seus defeitos e acertos, será apagada nessa pequena comunidade do Canadá. Tudo por conta da lógica sem freio do capitalismo. Os humanos serão todos meio ciborgues. Aqueles que quiserem manter toda a sua humanidade serão tratados como marginais. Pelo menos é assim que eu enxergo o futuro. A vigilância dobrará e aqueles que ousarem ser humanos vão ser tratados como brutos e inferiores. Mudanças acontecem e nós, humanos, temos que nos adaptar para que não seja algo tão brusco. A humanidade sempre teve o anseio de buscar coisas novas e isso aumentou com a implementação do sistema capitalista. No entanto, não podemos nos esquecer que, antes de tudo, somos humanos e erros são permitidos. Uma sociedade que apaga o erro e, assim, apaga a própria humanidade dos seus moradores. Quayside é pra mim o primeiro bater de asas rumo ao universo e tudo que nos cerca. A implementação de uma cidade onde tudo depende de coisas alheias ao ser humano é, na minha opinião, um bater de asas rumo ao sol, como visto no mito grego de Ícaro. Mas a vida é, basicamente, repleta de passos rumo ao sol. Nada é como antes e, depois da criação de outras cidades como Quayside, tudo mudará. Esse é o curso natural das coisas. Como disse acima, não haverá mais humano 100%, mas nós não poderíamos esperar uma era sem evolução. O universo é algo vivo, ou seja, algo que transforma sempre. Quayside é só o começo de algo muito maior.

  • Thaís Henriques Barros de Oliveira

    Muito interessante sua análise a respeito da Internet das coisas (IoT). O Quayside, em Toronto, é uma situação muito intrigante e extremamente interessante. Imagino que grande parte das pessoas atualmente almeja tecnologias que tornem nossas vidas mais práticas e conectadas. A ideia de um bairro inteligente é atrativa para quem quer uma rotina coesa, atividades facilitadas, cidade sem trânsito, ou seja, é uma cidade dos sonhos! Contudo, existe toda a polêmica de como isso pode instaurar uma vigilância social e perda da privacidade. Quando atuam como vigilantes, penso que essas tecnologias não deveriam estar em igualdade com os sujeitos, visto que o direito à privacidade deve ser garantido à todos e isso está acima de uma vida tecnológica. Tratar a IoT como “alguém” que assume identidades humanas para realizar trabalhos cotidianos é mesmo uma questão extremamente polêmica e controversa. Podemos pensar, por exemplo, no filme “Ela” que humaniza completamente um software de machine learning e levanta questões sobre esse tipo de tecnologia que estarão cada vez mais presentes em nossas vidas. Discussões acerca de personalização de conteúdo e filtro de informações em redes sociais estão sendo levantadas para aferir o caráter alienante das tecnologias, principalmente tecnologias da informação. O que me questiono é se isso é realmente alienante e neurótico ou se estamos passando por um processo de redefinição do status quo tecnológico. Se a IoT e o machine learning estão sendo considerados próprios de auto-alteração e de relacionamento com os sujeitos, eles são parte da construção da realidade e, por isso, são afetados pela realidade. Dessa forma, são co-produtores da realidade e não completamente responsáveis por uma situação de alienação.

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