Whistleblowers e neutralidade

Quais as fronteiras entre um serviço de utilidade pública e interesse privado ou

who watch the watchmen?

Por Pedro Paixão

 

As eleições presidenciais norte-americanas de 2016 provocaram um cataclisma sócio-político que continua a reverberar e incomodar o atual chief in command da Casa Branca. Após diversas investigações sobre as alegações de interferência russa no processo que elegeu Donald Trump, involvendo boa parte do Vale do Silício e o Partido Republicano, chegou a vez da bomba estourar na mão de mais uma organização. Só que, dessa vez, o alvo foi o Wikileaks.

 

A organização ciberativista está sendo acusada de colaborar com a campanha de Trump, sob a forma de vazamentos seletivos e formação de uma “agenda midiática” a fim de minar a credibilidade da ex-candidata republicana, Hillary Rodham Clinton. A história foi reportada pelo The Intercept e o The Atlantic, baseado numa série de screenshots postada no Twitter por Donald Trump Jr., filho e integrante da campanha presidencial de @realDonaldTrump.

 

O coletivo de whistleblowers e ciberativistas, liderados por Julian Assange, haviam sido protagonistas de um dos episódios definidores da campanha, o vazamento de e-mails do Partido Democrata e, em especial, do chefe da campanha presidencial de HRC, John Podesta. Ao ser vítima de um ataque clássico de phishing, Podesta deu acesso a quase 60 mil e-mails confidenciais que atestam, em detalhes, estratégias de campanha pouco ortodoxas do Partido Democrata, palestras que Clinton ministrou para banqueiros em Wall Street e comentários variados, desde potenciais eleitores católicos até a vantagem explícita de Clinton em relação ao outro pré-candidato do partido, o socialista Bernie Sander..

 

Por causa do timing do vazamento dos e-mails, o Wikileaks foi duramente criticado e acusado de estar promovendo uma campanha contra Hillary Clinton, além de serem “agentes de propaganda russa”. Assange negou veementemente, atestando que aquilo era um serviço público, apesar de seu desgosto declarado pela candidata liberal e preferência explícita por Sanders.

 

Passada a eleição e subsequente derrota de HRC, o assunto Kremlin versus Casa Branca continuou a respingar nos ciberativistas, só que dessa vez com provas substanciais. Donald Trump Jr., filho do atual presidente dos EUA, tuitou uma série de screenshots que mostram mensagens diretas enviadas pela conta oficial do Wikileaks – @wikileaks, gerida por Assange – oferecendo ajuda à campanha de Trump em 2016. Essa ajuda era baseada numa série de vazamentos seletivos de informações, que impulsionariam a credibilidade e percepção de “imparcialidade” do site enquanto detonavam a campanha de Hillary.

 

Após a chuva de críticas dirigidas ao Wikileaks e Assange, fica o questionamento: até onde a subjetividade de whistleblowers pode interferir na percepção dos vazamentos de informação?

 

Seria no mínimo ingênuo assumir que organizações antihegemônicas como Anonymous e Wikileaks não possuem agendas e interesses próprios, além da desestabilização quasi anárquica das estruturas de poder. Mas não deixa de ser curioso observar o paradoxo que essa situação criou. Essas organizações criticaram duramente a grande mídia (NYTimes, Washington Post, etc.) pelo seu caráter pró-Clinton mas, ao mesmo tempo, desenvolviam uma própria agenda que visava beneficiar um interesse específico, o de impossibilitar a candidatura de HRC em prol de Sanders.

 

Numa realidade onde terabytes de informação circulam diariamente pelas esferas de discussão online e off-line, a notícia da colaboração Assange-Trump pode chocar os incautos, mas serve para ilustrar nossa própria relação com esses “desestabilizadores” do sistema.

 

Estando numa época de incerteza e forte polarização ao redor do globo, fica muito fácil ser sensibilizado por pessoas dispostas a sacudir o status quo, como Assange fez com a administração Bush e Snowden com o NSA. O pulo do gato nesse caso é: até onde vai a responsabilidade de whistleblowers e até onde podemos assumir que ativistas não são imaculados?

 

O fato é, somos humanos, e, tal qual diagnosticado por filósofos e sociólogos, não somos imparciais. Temos nossa carga de subjetividade e, mais do que frequentemente, somos paradoxais.

 

Seria, então, justo exigir uma imparcialidade (intangível) de pessoas que se rebelam contra o sistema? Devemos deglutir informações e apoiar “dissidentes”, apenas para nos decepcionar quando o elemento da contradição humana vem à tona? Ou deveríamos seguir atentos e vigiar os próprios vigilantes? Afinal de contas, who should watch the watchmen?

 

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